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OBRA DE SEVERIANO PORTO ABANDONADA


Reprodução: Elaíze Farias / Rizorácio Barroso
Para as novas gerações do Amazonas, o nome do arquiteto mineiro Severiano Mário Porto, está comumente associado ao estádio Vivaldo Lima, demolido em 2014, fato que causou comoção em muitos dos admiradores de seu trabalho. A dimensão da obra de Severiano Porto, porém, é tão abrangente, que já merece um tratamento compatível com a estatura e a relevância de seu trabalho, extensamente premiado no Brasil e no exterior, mas ainda pouco reconhecido no Estado onde ele morou durante quase 40 anos.
Por que Severiano Mário Porto é mais mencionado do que conhecido para a grande parte da população
do Amazonas? Porque provavelmente muitas das informações sobre seu trabalho estão pulverizadas pelo tempo, sem um catálogo ou um levantamento a respeito. Duas iniciativas, contudo, planejam acabar com essa invisibilidade.
Uma delas partiu da nova direção do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/AM), que pretende iniciar um levantamento sobre as obras de Severiano Mário Porto, para efetivar um diagnóstico visando, futuramente, propor o tombamento como patrimônio arquitetônico de algumas dessas obras.

Subversão

Severiano Mário Vieira de Magalhões Porto é mineiro de Uberlândia, formado pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil. O primeiro contato dele com o Amazonas aconteceu em 1963, quando visitou Manaus.
Retornou dois anos depois, a convite do então governador Arthur Reis, quando foi convidado para reformar o palácio do governo e projetar a Assembleia Legislativa. Os empreendimentos não foram executados, mas ele fez outros, como uma escola de madeira pré-fabricada.
Elizabete Rodrigues de Campos diz em um texto publicado no site www.vitruvius.com.br que esta foi a primeira “subversão” de Severiano Porto e a “primeira “imersão na dimensão amazônica que, começava a entrar, pouco a pouco, na sua vida”.
Mistério
A inspiração na moradia dos caboclos amazônicos está presente em praticamente todos os trabalhos de Severiano Mário Porto. Essa concepção ecológica, numa época que pouca se falava desse tema, foi ressaltada em artigo publicado pelo arquiteto na revista Projeto 83, de São Paulo, em 1986: “Construí uma casa de madeira junto de um igarapé; na época não era costume, apenas as pessoas do povo moravam assim”, descreve Porto, a respeito de uma de suas obras.
sua própria residência em Manaus também era de madeira, um esplêndido imóvel localizado na avenida Mário Ypiranga (ex-rua Recife). Vendida para a construtora Cristal quando Severiano foi embora de Manaus, a casa foi “desmontada” (o projeto permitia essa técnica), mas o paradeiro dos caixotes com os itens é um mistério.
Durante a apuração para esta reportagem, todas as pessoas procuradas (algumas delas citadas nesta matéria) para falar sobre o destino da casa afirmaram desconhecer onde estão os caixotes com os itens.
"O que se sabe é que com esse desmonte, o que daria para aproveitar, eram as peças de madeira e a cobertura, além da planta que permitiria a reconstrução em outro lugar. Só que há uma grande confusão e ninguém sabe onde estão”, diz Claudemir Andrade.
Ruínas

Apaixonado pela obra de Severiano Mário Porto, o arquiteto e urbanista Marcos Costa, 40, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e da Escola São Paulo, empreendeu uma viagem de lazer a Manaus em julho do ano passado.
Curioso para ver de perto uma das obras mais celebradas de Severiano, ele viajou até a Vila de Balbina, no município de Presidente Figueiredo, e foi surpreendido pela visão de um imóvel abandonado e prestes a desabar.
Em forma de maloca indígena e toda coberto de cavacos (lascas de madeira), o Centro de Preservação Ambiental de Balbina (CPAB) foi projetado (construído em 1987) para sediar trabalho de impactos ambientais causados pela Usina Hidrelétrica de Balbina, mas sua função nunca foi adiante.
Hoje, sequer é ponto turístico devido às suas condições físicas. A visita de Marcos Costa no local é relatada em seu site, http://marcosocosta.wordpress.com, por meio do qual a reportagem chegou ao arquiteto.
“O Severiano é uma referência importante para a minha geração. Nessa época o trabalho era referência importante. Não só de ele fazer arquitetura que buscasse uma integração com o meio e o natural, mas também da arquitetura de técnicas construtivas de madeira e pela qualidade arquitetônica. Balbina foi uma obra visionária, com cobertura de cavacos de madeira. O Centro é um trabalho de altíssima qualidade. Quando cheguei lá não esperava encontrá-lo dessa forma. É de se lamentar”, conta.
Marcos Costa conta que teve informação de que o imóvel foi construído para ser temporário, mas dada a qualidade arquitetônica, ele poderia ter outra destinação e não ser abandonado à própria sorte, pois é flexível e com capacidade de ser reformado sem perda de sua qualidade.
“É uma obra premiada e uma das mais importantes do Brasil. Muito contemporânea. Tem uma cobertura plástica, irregular e sinuosa. Se a situação em que está não for interrompida, pode virar pó. Ainda mais porque é de materiais perecíveis. Por isso é preciso de cuidados especiais para ter longevidade e manutenção periódica e mais permanente. Essa situação ainda pode ser revertida”, contou.


Reconhecimento

Desapontado com o destino do Centro, Marcos dá um alerta: “Acho que o Severiano mereceria ser reconhecido como deve. O Brasil, e principalmente o Amazonas, deve muito a ele. Sua obra precisa ser reconhecida e melhor tratada”, diz.
O estudante de arquitetura Keyce Jones também lamenta o estado do Centro de Preservação Ambiental de Balbina. “É uma das mais expressivas obras dele. Hoje encontram-se completamente abandonadas e desmoronando, sem nenhum cuidado da empresa que administra o local. Talvez não haja interesse, mas que o mesmo repassasse esse importante monumento da arquitetura regional para algum órgão do Estado para que pudessem revitalizá-lo e transformá-lo em algum espaço intenso de vida, como já foi há alguns anos”, diz.

Sem recursos

Procurada para falar sobre a situação do CPAB, que é mantida pela Eletrobras Amazonas Energia, a assessoria de imprensa da empresa informou que, por conta de diretrizes governamentais, a empresa sofreu diversas reestruturações que impactaram sua gestão.
O maior reflexo foi sua restrição orçamentária, limitando a capacidade de realizar intervenções no CPAB. Uma reforma no CPAB custaria para a empresa R$ 5 milhões, no valor de hoje.
A assessoria informou que, quando foi construída, várias pesquisas foram desenvolvidas no espaço com o objetivo de minimizar os efeitos negativos da Hidrelétrica de Balbina.
O acervo arqueológico e da fauna foi retirado do CPAB e levado para uma residência na Vila de Balbina. O material de cultura dos índios Waimiri-Atroari transferido para a sede do Programa, em Manaus. As demais atividades passaram a ser desenvolvidas em outros espaços da Eletrobras Amazonas Energia. Em 2006, o local deixou de ser sede da Reserva Biológica Uatumã.
“Embora o CPAB apresente uma proposta arquitetônica arrojada, a vida útil de sua estrutura, a longo prazo, em razão do material utilizado em sua construção, por certo ficaria comprometida, em face, sobretudo da severidade climatológica”, diz nota da assessoria.
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